sábado, 28 de fevereiro de 2009

espiadinha

há um tempo, procuro um espaço de discussão séria sobre reality shows.

nesse momento, tava procurando algum texto sobre o filme "Quem quer ser um milionário?".

achei

- acaso, link, memória e tal -

o ensaio Reality show: um dispositivo biopolítico, da professora Ilana Feldman

no site www.revistacinetica.com.br

abaixo, trechos do ensaio.

para ler o texto completo: http://www.revistacinetica.com.br/cep/ilana_feldman.htm

"é preciso que tudo se torne visível para que se possa administrar, prever, programar, monitorar e simular. É preciso que tudo se torne visível para que se possa não mais vigiar e punir - como nas modernas sociedades disciplinares -, mas espiar e premiar, controlar e estimular, constranger e liberar. Binômios paradoxais moduladores da experiência e da vida nas contemporâneas sociedades de controle, vida que tanto escapa às dominações quanto demanda ser por elas reativada, vida que reivindica a possibilidade de se furtar ao olhar alheio ao mesmo tempo em que solicita ser permanente observada.

"a clássica definição de voyeurismo, empregada muitas vezes para explicar brevemente nossa contemporânea 'pulsão escópica', não daria conta da complexidade das relações de poder em jogo no ato de 'espiar', pois nos reality shows não há roubo de imagem, não há uma observação sem consentimento e seletiva, a partir de um único ângulo (a clássica figura da fechadura ou da janela), não há alienação por parte dos vigiados, por mais que naturalizem - e eventualmente esqueçam - os olhares vigilantes. Antes, para além de um possível voyeurismo, trata-se da interiorização da vigilância por meio de um pacto de encenação, que por sua vez implica uma relação de poder produtiva, e não repressiva: encenando-se a si mesmos e interpretando seus tipos, em reação e em relação às câmeras, os participantes de um reality show demandam ser constantemente observados, em um tipo de pacto em que o ato de espiar, vigiar ou espreitar é ressignificado. Não se trata mais então de observar furtivamente, à distancia e na solidão, mas de tornar explicito, transparente e democrático o modo como opera esse olhar. Como diz freqüentemente o apresentador, Pedro Bial: 'vamos exercer nosso direito de espiar!'.

"é necessário salientar que, tal como o corpo que ressuscita nas mãos do anatomista, o BBB está sempre em mutação e em permanente atualização de seu formato, a fim de evitar qualquer tipo de envelhecimento de sua fórmula e desgaste de seus altos índices de audiência.

"quanto mais rentabilizada e valorada como um 'capital pessoal' a ser cuidadosamente administrado, negociado e atualizado; quanto mais investida e atravessada por poderes, dispositivos e tecnologias; e, quanto mais aparentemente valorizada, em sua dimensão 'cotidiana' e 'ordinária', mais a vida é instrumentalizada, expropriada de sua existência propriamente política e reduzida a uma performance: comportamental, sexual, midiática e profissional.

" 'formato narrativo' Big Brother, cuja matriz inspiradora é a distópica ficção-científica-política 1984, porém agora desprovida da pauta ideológica e amalgamada por uma cultura democrática, a vigilância não mais coage, como no romance, mas, de modo oposto, é requerida e consentida, conferindo visibilidade e existência social ao libertar o confinado da 'aprisionante' condição do anonimato. O que significa dizer que, para que o anônimo candidato ao confinamento se 'liberte' ou se 'emancipe' socialmente, é preciso que ele demande e se submeta às novas e contínuas prisões - exercidas pela casa do programa, pela empresa, pela fama. Eterno jogo de espelhos entre a liberdade que impõe aprisionamento e o aprisionamento como condição de liberdade. Ou se trataria de uma estranha condição contemporânea - que nos evoca imagens kafkianas - em que sujeitos demandam assujeitamento para que deixem de ser sujeitados? Não seria exagero, aliás, aproximar a figura da porta que encerra os confinados no cativeiro de luxo do BBB à parábola de Kafka, 'A porta diante da lei'. Em ambos os casos, trata-se da espera - e da voluntariedade - diante da arbitrariedade do poder. Um poder que, ao encerrar quem está dentro, aprisiona os que vivem fora.

"Se compreendemos os reality shows como sintoma e diagnóstico de um panorama sócio-político marcado pela rarefação das fronteiras constituintes do mundo moderno, podemos então sugerir que eles operariam em dois sentidos justapostos: ao mesmo tempo em que são efeito de uma série de mudanças e deslocamentos históricos ocorridos desde as últimas décadas do século XX, apresentam-se também como um instrumento, que, ao capitalizar o problema, visa, de certo modo, contorná-lo. Esta espécie de atenuação se evidencia pelo fato de que a lucratividade dos reality shows está em promover uma pedagogia social no âmbito do audiovisual, por meio da qual se criam e se compartilham repertórios consensuais de modos de gestão da própria vida - como a produção alterdirigida do corpo, do comportamento e de uma imagem de si performativa.

"Não seria exagero sugerir que, cada vez mais, os dispositivos tecnológicos, telecomunicacionais e audiovisuais contemporâneos põem em funcionamento - como já nos havia alertado Paul Virilio, no início dos anos 90 - um 'integrismo técnico', marcado por algumas propriedades do divino, como, além da onividência e onisciência, a onipresença, a ubiqüidade, a instantaneidade e a transparência. Nesse sentido, poderíamos também compreender a proliferação de reality shows e de toda sorte de objetos audiovisuais contíguos que apelam constantemente à realidade, por meio da intensificação de efeitos de real e de verdade, como a expansão de um regime de visibilidade fascinado pela ilusão da transparência total - tudo ver, tudo mostrar, tudo provar, nada esconder.

"Ao mesmo tempo, tal desejo de transparência carrega consigo o fantasma da vigilância, evocado em nome da segurança: é preciso cada vez mais fechar, codificar, constranger, isolar. Contudo, se esse regime de visibilidade pode ser instrumentalizado e reduzido a uma função social-técnica - reguladora de condutas, de comportamentos e de libidos -, atuante em nível local, seu objetivo maior é tornar-se uma linguagem hegemônica em nível global, justamente porque totalizante, roteirizada, programada e programática - como, aliás, é a linguagem da cibernética, da estatística e da genética. Os reality shows se afigurariam assim como um dispositivo biopolítico e como uma linguagem hegemônica do capitalismo imaterial, quando a dimensão inventiva, libidinal e produtiva da vida e da experiência humana torna-se matéria-prima e núcleo vital da política, da produção estética, do desenvolvimento tecnológico e da organização dos fluxos capitalistas.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

livro s: pra lê pra quê? pra lá pra cá!

Citações


epígrafe do livro Coélet, de G. Ravasi:


"Se o livro que estamos lendo não nos desperta como um golpe na cabeça, por que o lemos? Meus Deus, seríamos felizes também se não tívessemos livros, e se os livros que nos tornam felizes, pudéssemos nós mesmos escrevê-los. Mas os livros dos quais temos necessidade são os que caem sobre nós como a desgraça, que nos perturbam profundamente como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, como um suicídio. Um livro deve ser como uma picareta que rompa o mar de gelo que está dentro de nós."

FRANZ KAFKA


poema
Os cortejos, de Mário de Andrade citado na tese O expressionismo na biblioteca de Mário de Andrade: da leitura à criação, de Rosângela A. de Paula:

Monotonias das minhas retinas...

Serpentinas de entes frementes a se desenrolar...
Todos os sempres das minhas visões! "Bon Giorno, caro."

Horríveis as cidades!
Vaidades e mais vaidades...
Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria!
Oh! os tumultuários das ausências!
Paulicéia - a grande boca de mil dentes;
e os jorros dentre a língua trissulca
de pus e de mais pus de distinção...
Giram homens fracos, baixos, magros...
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar...

Estes homens de São Paulo,
Todos iguais e desiguais,
quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos,
parecem-me uns macacos, uns macacos.


lendo O Expressionismo, de J. Guinsburg (org.).

lendo a tese UM GRITO CHAMADO DESEJO - A voz na criação polifônica de Mário de Andrade, de Luciana A. Gonçalves.

lendo Um Médico Rural - Pequenas Narrativas, de Franz Kafka.

lendo Amar, Verbo Intransitivo - Idílio, de Mário de Andrade.


Fortaleza, 26.2.9.
Rodolfo Silva

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

às vezes me dá taquicardia

é
às vezes me dá taquicardia
-
nome certo:
fibrilação atrial
--
o que sinto e vejo:
meu peito saltitante
--
-
escrevo.


"Escrevo como escrevo sem saber como e porque – é por fatalidade de voz. O meu timbre sou eu. Escrever é uma indignação. É assim: Será que estou me traindo? Será que estou desviando o curso de um rio? Tenho que ter confiança nesse rio abundante... Há tantos anos me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar. Estou com medo de começar. Existir me dá às vezes tal taquicardia. Eu tenho tanto medo de ser eu. Sou tão perigoso que me deram um nome e me alienaram de mim."

Clarice Lispector
Um sopro de vida


Fortaleza, 18.2.9.
Rodolfo Silva

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

ao ler

leio o livro Amar, verbo intransitivo - Idílio, de Mário de Andrade.
tento abarcá-lo em sua conjugação difícil, segundo chamou Telê Ancona Lopez.
o que me atrai na leitura é a própria provocação do autor.

“O livro é uma mistura incrível. Tem tudo lá dentro. Crítica, teoria, psicologia e até romance: sou eu. E eu pesquisador.”

é um convite expressionista.
assisto filmes mudos.
ouço óperas de Wagner.
leio poemas.
olho quadros.
tenho que ler Freud.

Fortaleza, 6.2.9.
Rodolfo Silva

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009