domingo, 14 de julho de 2013

O desenho


       O desenho do menino nunca saiu. Saiu sim, rabiscado. Parece tremido o seu movimento, entre alzheimer e graves. Risível. Foi com esse desenho que saí às ruas. Apesar do tempo de ocupação das ruas, não é a isso que me refiro. Isso não é uma crônica. Também com palavras, meus traços são trêmulos, não se fixam.
      O papel é comum, de preferência num tom amarelado, para parecer uma escolha. Foi mais por causa do papel que comecei a desenhar. Antes, usava qualquer papel, páginas de caderno, folhas em branco, cadernos de desenho de aulas de educação artística. 
        Eu não diria isso a qualquer psicanalista. Teria que ser numa sala aconchegante, um bom divã, que me acolhesse como a um embrião. Foi nas aulas de educação artística que tudo começou. Não me resta dúvida, isso também não é biografia ou confissões. Não sou muito bom com memórias. Isso confunde minha cabeça.
        O desenho, do menino, após muita relutância entre o grafite e o nanquim, saiu. Isso era uma questão de arte, de revolução estética. Não queria que o menino, do desenho, fosse a expressão de uma mão tremida, mas de algo com densidade e rigor, por isso experimentei a xilogravura e uma impressora multifuncional com scanner. Lembro que conversei com gente do audiovisual sobre o desenho do menino. Alguém até sugeriu um argumento para um curta, uma animação, a câmera tremida, a montagem não-linear. 
        Muita gente se agitou com minha ideia. L. disse petrov, F. disse goeldi, K. disse kafka, G. disse p. floyd, R. não disse nada, A. disse ã-rã,  B. diria e C. teria dito ,
         Ainda tenho dúvidas se isso é uma ideia. Desde Brás Cubas, não sei mais.
        A última vez que fiz o desenho, senti-me quase feliz. Arrumei a mesa, separei as folhas pardas, catei lápis e nanquim, recolhi algumas certezas. Naquele dia, suspendi compromissos, refeições e pagamentos. Foi por isso que senti-me quase feliz.
        O milímetro que separou a ponta do grafite do papel me fez pensar no uso das réguas nas aulas de educação artística. Isso mudou tudo. O instante que abrangeu o intervalo entre o milímetro do primeiro período deste parágrafo e o contato entre grafite e papel arrastou-me para um outro lugar: um quarto de empregada doméstica, a plataforma de um trem da estação da Sé, a fila de um banco, a ranhura de um LP arranhado, a batcaverna. Isso trouxe tudo à normalidade. 
         Desenhei o menino.
         Guardei a folha num envelope pardo.
         Saí.
    Numa banca de revistas, avistei um fascículo de uma coleção de pintores. Pensei, penduleei, comprei, folheei, deparei-me com uma figura.
    Um cara estranho, metido, cutucou-me no ombro esquerdo, como se estivesse desenhando. Isso eu percebi através do espelho convexo de segurança da banca. Quando virei, ele se contorceu como um caracol para dentro de seu chapéu-coco. Fitei, novamente, o espelho para crer no que acabara de ver. Arranquei o espelho, segurei-o com a mão esquerda e vi-me com uma cara de velho, de cavanhaque, num escritório.
         Ao chegar, retirei o desenho do envelope e disse para mim mesmo: 
         - Isso não é um menino.

Rodolfo Silva
Fortaleza, 14 de julho de 2013.






sexta-feira, 12 de julho de 2013

espero por mim [invento a paternidade]

Para Rafael Calvet,
a lembrança,
o café,
o abraço (grande grande).

Aos amigos: filhos, pais.
Aos meus meninos: Miguilim e Chico.

"The truth is, I didn’t see anything of myself in my father.
And I don’t think he saw anything of himself in me.
We were like strangers who knew each other very well."
William Bloom, Big Fish, de Tim Burton.

"E o que disserem 
Meu pai sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Agora meu filho espera por mim"
Legião Urbana, Esperando por mim, em A tempestade


Parece tristeza, mas é Alegria: profunda & indestrutível.
Não sei se me preparei bem para ser pai. Para bem poucas coisas eu me preparei bem.
Agora, pai de dois meninos.

Não dá pra descrever todas as experiências, todas as vivências, todos os sentimentos e emoções.
Seria infrutífero.
Escolher o que escrever também é difícil.
Mas falar de algo que conheço bem pouco é o que quero.
Dessa paternidade que invento, cada dia novo nosso.
Daquilo que exp'rimento com inspiração cotidiana das pequenas coisas caseiras, urbanas, automobilísticas, televisivas, livrescas, fotográficas, lúdicas.

Uma oração sempre inconclusa, sem améns, posto que arde fiel, centelhas.
Há algo que me atrai em ser pai.
Distraído sigo canções, filmes, livros, pais que me digam algodezas.
Não há pai que não esteja em mim, comigo:
Meu pai.
O pai do meu pai.
O pai de minha mãe.
Os pais dos pais dos pais dos pais.
Aquele pai novo, que não sabe não quer.
Aquele que desistiu, insistiu, abortou, adotou.
Pai nosso! Amém!

E nesses poucos dias da vida do Chico, 
dias de resguardo, 
dias de férias, 
dias noctívagos,
vou levando Miguilim a lugares de nossa cidade, interditos à paternidade.
E nos olham com assombro e excentricidade.

"E o que disserem
Os nossos dias serão para sempre"

Rodolfo Silva
Fortaleza, 12 de julho de 2013