terça-feira, 20 de novembro de 2007

chover poesia 2

chovem - dum'altura de prédio
pequenas foliãs na praça, fingindo móbiles de papel
caindo arabescos às calçadas fractais - poetas



Fortaleza, Dia da Consciência Negra, 2007
Rodolfo Silva

chover poesia (queda d'água em três versos ou haikai arre-egüiano)

"Do dia em que choveu poesia", Jornal O POVO, de 19.11.07
chovem - dum'altura de prédio
pequenas foliãs na praça, fingindo galáxias de papel,
trazendo trajetórias rotas de colisão fractais - poetas





Fortaleza, Dia da Consciência Negra, 2007.
Rodolfo Silva

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

quase política

Para Ana Maria Marias


já que hoje comemora-se aquela proclamação da república, por que não escrever algo quase político?
uma crônica política, uma análise de conjuntura, um ensaio político, um tratado...
melhor! uma nova constituição!
(talvez seja melhor mesmo aproveitar o feriado)
meu senso de patriotismo ou heroísmo inconfidente deve ter sucumbido nas ruas da antiga Vila Rica.
talvez um texto poético como os estatutos do homem, apenas não dedicado a CHC!
bem, não li a pedra do reino, mas assisti à alucinógena película de Luiz Fernando Carvalho.
no fundo, confesso, sou monarquista!
principalmente das cortes maracatuenses!
devíamos ter escolhido, democraticamente, a Monarquia!
(mas hoje é dia de república, que pena...)
então, falemos da República!
aquela de marechais, de símbolos pátrios, de alferes socrático-messiânicos!
é... aquela mesma de ditadores-pais do povo, de ditas revoluções revolucionárias!
(hoje é dia de se comemorar!)
nas escolas, principalmente. educar civicamente nossas crianças!
nas ruas, principalmente.
nas cidades, principalmente!
isso, nas Pólis.
é exatamente aqui, onde queria chegar: na Pólis!
não foi lá (aqui) que tudo começou? na Pólis!
aquela Pólis maravilhosa, helênica, democrática, livre, viril!
quase lá, quase Pólis.
(de repente, me vejo perdido, diante do que escreverei - o que é que tem a ver política com república?)

Fortaleza, 15.11.7.
Rodolfo Silva

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

tristeza

pareço triste.

alguma repetida parede
levanta-se.

um vento constante
horizonta-se.

por um instante
deito
pareço dormir
sonho.

estou triste.

não sairei do lugar
até que tudo desapareça.

pois é
não sairei desse triste lugar.

Fortaleza, 5.11.7.
Rodolfo Silva

sábado, 3 de novembro de 2007

cultivar o quê?

para o amigo
S.R.L. Dias

"Cultivar o deserto
como um pomar às avessas."
João Cabral de Melo Neto (1920-1999)
poeta pernambucano

i. terras férteis
cultivar o que
em São Paulo
raízes de metrôs
para árvores de concreto

cultivar o que
em Recife
mangues galegos
para obeliscos de brennand

cultivar o que
em Lisboa
penínsulas desconhecidas
para jangadas levantadas do chão

cultivar o que
em Minas?

ii. pó
cultivar rosas
colher sertões
cultivar saramagos
colher cegueiras insulares
cultivar lins
colher avalovaras
cultivar verbos andrades
colher amores intransitivos


iii. invisível
cultivar esperança
colher solidão crucial
cultivar silêncio
colher palavras inúteis
cultivar rosas em asteróides
colher amizade de raposa

Fortaleza, 3.11.7.

Rodolfo Silva