sexta-feira, 5 de novembro de 2010

início de um Romance

"chegando à praia
não fiz nada disso
então caí
nos braços de calipso
eu sucumbi
ao encanto de calipso
não resisti"
(péricles cavalcanti, na voz de adriana calcanhoto)


início de um Romance

"ela é americana da América do Sul
elá é americana da América do Sul
eu amo uma americana
ela é bacana
linda pra chuchu"

Ravioli ouve e ri. Lembra sua última namorada. Não sabe porque terminaram. Ciúme, chifre. Briga feia. O ônibus lotado voa. As borboletas amarelas do vestido rosa. As palavras pretas, o papel amarelado, as páginas inquietas da Bíblia do crente, ele lê. Mistério. Coisas redondas na vista do menino. Pupilas, rodas, tampinhas e o que há debaixo delas. Segredo. O motorista sabe dos sucessos. DJ nato. Ele não muda a rádio na viagem. Não cede a apelos. Não é democrático. É rei, empregado, amante, marido, feladaputa, filho-duma-égua, é só não parar na parada. Basta um freio brusco para sua família metamorfosear-se numa casta suína, jumentícia, para delírio da torcida passageira. Ravioli torce a coluna ao passar a Parangaba. Sabe seu tempo. Emprego novo. Descobrirá o significado da porra do nome que gosta. Foi num programa de TV que sua mãe ouvira, numa folga na casa da patroa. Ravioli. O ônibus amarelo se afunila entre outros perto do Centro da cidade. Muita gente já desceu. O vestido farfalante. O menino vê redondo. A próxima é de Ravioli. Dá sinal. A penúltima antes do fim da linha. A música é outra. Sua lembrança é a da cidade que pouco conhece. Tenta reconhecer as lojas. As vozes dos vendedores. Os letreiros. Acaracuzinho não é colorido.


Fortaleza, 5.11.10.
Rodolfo Silva

5 comentários:

Facundo disse...

Ei Rodolfo, óbvio que eu não vou ser sacana e colocar aqui só um "Muito massa"! hehehehehe

Adoro narrativas urbanas... principalmente eu que, de tanto andar de ônibus, já me encontro doutor do gênero narrado em seu texto...

Gostei dos palavrões... Palavrão liberta né!? Putaqueopariu, como liberta!

Um romance que começasse assim certamente mereceria ser devorado...

Falô House!

coisas do eu disse...

Diga lá, Georges, amigo.
imaginei que você gostaria do texto.
Digo mais, o que liberta não é o palavrão. É a palavra. Tanto faz (desde que desejada) a palavra que se digita/escreve: porra ou menino. Não importa (importando muito por terem sido elas). O que liberta é a literatura!
I'm free in my house!

Dagoberto Silva disse...

simples, poético, e pertubador da curiosidade. gostei!

Felipe Luiz disse...

diga lá grande Rodolfo!!
show de bola o texto! a palavra tem gosto que dá gosto de ler a palavra!

forte abraço!!

Naiana Carvalho disse...

Sempre me encanta o modo como as palavras entram, brincam com as ideias e nos geram imagens tão reais.
Adorei!